terça-feira, setembro 29, 2009

O relato de uma professora sobre gás, asfixia e educação

"Ontem, 24 de setembro, na Escola Municipal Desembargador Oscar Tenório, onde leciono em Sala de Leitura, vivemos uma situação de alta gravidade, quando um gás asfixiante tomou os espaços do grande prédio, gerando pânico, como nos filmes americanos de catástrofes. A forte ardência nos olhos e na garganta, aliada à atmosfera geral de desespero, arrancaram-me,  às pressas, da sala. Infiltrei-me na multidão que descia as escadas, buscando salvação. Em seguida, senti uma dor aguda, após a visão inusitada do meu joelho girando bruscamente. Travei. Já não podia mais buscar a saída. Mas, brotando da aflição geral, o Universo enviou-me dois alunos que me conduziram no colo até um táxi, e, depois, ao hospital.

"Comenta-se que o autor do ato de vandalismo seria um estudante da própria escola. Hoje, com a perna imobilizada, e impedida de trabalhar, recobro meu equilíbrio emocional , que se esvaiu nas muitas lágrimas de ontem, para expressar minha visão sobre a estrutura a que estamos entregues.  Nós, professores, diretores, coordenadores, guerreiros idealistas, que lidamos intimamente com o dia-a-dia das escolas, somente nós conhecemos as dificuldades enfrentadas para exercermos nosso ofício. Como mágicos criativos, tentando retirar da velha cartola da Educação, um pombo milagroso que nos ajude a melhor realizar nossa tarefa amorosa e digna, de informar e formar personalidades. Nossa bela e árdua tarefa de ensinar, em meio ao caos social que se reflete n'as salas de aula superlotadas, e nos colégios sem inspetores suficientes. E, sobretudo, sem orientadores educacionais, ou psicólogos, parceiros  essenciais para atender à demanda crescente de adolescentes com graves problemas emocionais (que nem sempre a família absorve). Problemas que temos de enfrentar, mesmo sem qualificação profissional especializada, e em detrimento da nossa saúde física, emocional e psicológica."

CARMEN MORENO (professora e escritora)

2 comentários:

Alfeu disse...

Também sou professor da escola citada e nela vivemos em constante desconforto sobre o que pode acontecer em outro momento de pânico. Esta não foi a primeira vez pois tive falta de luz ano passado. Em completa escuridão, num ambiente totalmente fechado e escuro, sem rota de fuga, sem ventilação, só não ocorreu uma tragédia pois os professores conseguiram conter a confusão que durou várias horas.
Trabalhamos num ambiente inseguro e com pouco pessoal de apoio.

Anônimo disse...

Tambem sou professor da Escola Oscar Tenório e estou solidário a Carmem. Todos nós da escola lamentamos muito o incidente e ainda estamos muito abalados. Espero que este episódio sirva de lição para que as autoridades enxerguem a triste realidade das escolas públicas do Rio de Janeiro e ofereçam melhores condições de trabalho para o professor.